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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Sabedoria de Joquebede, mãe de Moisés, em criar seu filho em tempos maus.

A Sabedoria de Joquebede, mãe de Moisés, em criar seu filho em tempos maus.

Êxodo 2 : 1 à 10
Conhecendo a história do povo de Israel percebemos que nos tempos de Joquebede o povo de Deus vivia como escravo no Egito. Longe de sua terra, muitos longe até do seu Deus. Eram tempos difíceis. Como educar os filhos em meio a tantos deuses? Como ensinar princípios bíblicos se viviam rodeados de toda sorte de sincretismo? Mesmo em meio a tempos maus, havia a promessa de Deus, que lhes enviariam um libertador. E Joquebede foi escolhida pra ser mãe desse libertador.
Vejamos a Sabedoria dessa mãe em tempos maus.

No versículo 2 lemos: "E a mulher concebeu e deu à luz um filho; e, vendo que era formoso, escondeu-o por três meses."



1)  Escondeu-oSabemos que o rei havia decretado a morte dos bebês e pra salvar a vida do seu filho ela o escondeu. O desejo daquela mãe era de poupar a vida do filho, deixá-lo viver, vê-lo crescer, engatinhar, andar, correr... Viver. O desejo de qualquer mãe. Mas o que aprendemos com isso? Como podemos salvar a vida dos filhos hoje? Escondendo-o? Sim, mas não pra salvá-lo da morte física, mas para salvá-lo da morte espiritual. Como? O mundo já em trevas é a comprovação Bíblica, vivemos tempos maus. Precisamos poupar a vida de nossos filhos de determinadas situações. Quais? O que o seu filho ouve é o mais adequado? O que ele vê, assiste ou manipula e de acordo com princípios bíblicos? Joquebede precisou escondê-lo pra salvar a vida de seu filho. E nós precisamos escondê-los pra salvar a alma de nossos filhos. Devemos ter muito cuidado com tudo o que está sendo absorvido por eles.

Esconder? Sim. Poupá-los ao máximo desse mundo mau, com suas heresias e adoração carnal. De suas músicas que difamam a Deus e ao ser humano, de jogos que exaltam o ego, o erotismo e a violência, desenhos que ilustram o que é mau de forma prazerosa. Escondê-los pra salvá-los.

No entanto, assim como Joquebede, as mães de hoje também não podem escondê-lo por muito tempo. Não podendo, porém, escondê-lo por mais tempo, tomou um cesto de junco, calafetou-o com betume e piche e, pondo nele o menino, largou-o no carriçal à beira do rio. A irmã do menino ficou de longe, para observar o que lhe haveria de suceder.” (v. 3 e 4). Joquebede preparou lugar onde seu filho poderia ir, onde ele poderia ficar, o que poderia ser feito, direcionou o seu caminho e quando ela não podia está perto colocou alguém de sua confiança pra observá-lo. Ela sabia onde ele estava o que fazia e ainda o observava através de quem ela confiava. Joquebede sabia que não tinha como escondê-lo mais, mas preparou tudo pra que seu filho ainda assim tivesse segurança. E hoje o que podemos fazer? É certo que não podemos esconder os filhos de tudo nesse mundo, mas precisamos preparar terreno pra que mesmo exposto ao mundo ainda assim ele fique em segurança, não só de vida, mas especialmente espiritualmente. Como? Devemos sempre saber, com quem anda, o que faz, de que brinca, na escola o que é que está aprendendo? Atentos a palavras e idéias novas que aprenderão e mesmo longe de você ter alguém confiável observando-o. Atenção, mães... filhos enganam, eles não são inocentes, eles mentem, por mais novo que seja a índole deles são de pecadores, então muito cuidado, não ouça só seu filho pra tirar conclusões. É preciso saber de tudo que diz respeito ao seu filho.

Nos versículos 7 e 8 lemos: "Então, disse sua irmã à filha de Faraó: Queres que eu vá chamar uma das hebréias que sirva de ama e te crie a criança?
Respondeu-lhe a filha de Faraó: Vai. Saiu, pois, a moça e chamou a mãe do menino."


2)  Criar Mirian, a filha de Joquebede, irmã de Moisés e a pessoas de confiança que o vigiava, ela viu a oportunidade de mais uma vez salvar a vida de Moisés e não afastá-lo da família. Agora era não só salvar a vida, não só não afastá-lo da família era também ter a certeza que receberia os ensinamentos corretos. Mirian prontamente oferece uma ama de leite, alguém que pudesse criar o menino. Joquebede torna-se então essa ama, não só uma ama mas também quem o iria criar, ela se coloca agora em papel de educadora, ela precisava aproveitar o tempo que tinha com seu filho, era uma luta contra o tempo, era preciso inculcar a verdades da lei do Senhor. E assim ela o fez. Naquela época pra se desmamar uma criança, deixá-la criada, sem riscos de vida era necessários entre 4 a 7 anos, como nos diz a cultura judaica. E Joquebebe aproveita ao máximo o pouco tempo que tem com seu filho. A psicologia nos ensina que o que se ensina a uma criança  dos 0 aos 7 anos ela levará para o resto da vida, prestem atenção, a psicologia defende essa idéia, mas a Bíblia nos ensina a muito tempo isso. Tudo o que Moisés precisava saber a cerca de Deus, do temor ao Senhor fora plantado em seu coração, foi oferecida, ensinada e inculcada nesse tempo. A primeira infância é onde a criança mais absorve sem questionamento, ela aceita o que o pai e a mãe lhe dêem. E tudo o que o pai e a mãe lhes dêem vai ficar pro resto da vida.

Joquebede sabia o tempo que tinha com o filho e dedicou o máximo dele em criá-lo nos caminhos do Senhor. Hoje o que se vê é mães e pais que tem tempo de desfrutar com seu filho, mas não ensinam nada que se aproveita, e quando ensinam não é nada que direciona o caminho do filho para Deus, sem falar de mães e pais hoje que nunca tem tempo para o filho, nunca reservam um tempo pra desfrutar ao máximo a dádiva de ser mãe, de ser pai.

Precisamos Criar, quando vamos pro dicionário percebemos que criar é:
Sustentar; produzir; desenvolver; estabelecer; cultivar; alimentar; educar; instruir; amamentar; nascer; crescer; gerar.

Então, sustente seu filho na Palavra
Produza situações que o envolva a Deus;
Busque desenvolver a fé de seu filho através do seu testemunho vivo;
Estabeleça metas de fazê-lo conhecer a Deus,
Cultive o amor a Deus testemunhando a sua fé a ele;
Cuide da alimentação não só física com espiritual de seu filho;
Eduque-o na Palavra;
Instrua-o em tudo no amor de Cristo;
Amamente-o enquanto ainda não pode comer alimento sólido na fé;
Acompanhe-o em todo momento para que tenha o prazer de vê-lo nascer na fé
Permita que cresça em sabedoria estatura e graça diante de Deus e dos homens
Gere seu filho para Deus e não pra você ou para o mundo

Nos versículos 9 e 10 lemos: “Então, lhe disse a filha de Faraó: Leva este menino e cria-mo; pagar-te-ei o teu salário. A mulher tomou o menino e o criou.
Sendo o menino já grande, ela o trouxe à filha de Faraó, da qual passou ele a ser filho. Esta lhe chamou Moisés e disse: Porque das águas o tirei.”


3)  Humilhar-se - Vemos aqui que Joquebede se humilhou, tornou-se serva para que seu filho fosse criado nos caminhos do Senhor. Ela passou do cargo de mãe, protetora pra serva, que tinha até o seu salário, tudo pra não perder a chance de educá-lo para Deus.

Ela sabia que não ficaria com seu filho, ela sabia que não seria reconhecida na comunidade como mãe dele, ela sabia que teria que entregar seu filho pra morar em outro lugar, com outras pessoas, com outras culturas, com outras crenças, ela sabia que seu filho seria exposto as mais terríveis heresias, por mais que ela o tivesse escondido, o tempo de expor ao mundo chegaria, e chegou, ela o levou e entregou... mas o que havia sido ensinado, inculcado, instruído, ficou, permaneceu intacto e Moisés se tornou o homem que tornou, foi um instrumento de libertação pra seu povo.

E hoje? Podemos passar a humilhação de dizer entre outras mães que meu filho não vai fazer isso porque a Bíblia condena? Podemos nos humilhar e dizer que meu filho não participa de tal festa mesmo que toda a comunidade for e todos ficarem apontado pra você? Podemos nos humilhar e dizer meu filho não anda com determinadas roupas, mesmo que tudo e todos estejam contra você? Podemos ser feridas, mau vistas, criticadas, ser alvo de fofocas, mas se tudo isso for pra que seu filho permaneça salvo debaixo da graça de Deus, tudo isso não vai ser vão. No futuro você colherá frutos de bênçãos enquanto quem o acusou ou se levantou contra terá seus dias de amarguras.

Há um ditado que diz que “precisamos criar nossos filhos pra o mundo”, mas na verdade, Biblicamente falando, PRECISAMOS CRIAR OS NOSSOS FILHOS PARA DEUS, o mundo jaz no maligno e não creio que seja desejo de uma mãe ou de um pai criar um filho, uma benção de Deus para ser entregue ao maligno, mas creio que seja desejo destes entregá-los a Deus, na verdade, devolvê-los, com a responsabilidade cumprida de educá-los nos caminhos do Senhor.

Humilhe-se também diante do Senhor, colocando sempre a sua família no altar de Deus, para que Deus conceda a sabedoria concedida a Joquebede em criar o seu filho nos caminhos do Senhor.

E não nos esqueçamos nunca o que nos diz a palavra de Deus.
“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” Provérbios 22:6

Luciana Nunes Dourado Martins

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

CRIAÇÃO OU EVOLUÇÃO?


Assista o vídeo e veja que a própria natureza anuncia as obras do CRIADOR.

"Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos." 
Salmo 19:1

"Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis" 
Romanos 1:20

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O QUE FAZ UMA MULHER SÁBIA



Ao contrário do que pensa nossa sociedade secularizada, principalmente no que diz respeito à posição bíblica sobre o papel da mulher, a Palavra de Deus sempre trouxe uma preocupação quanto o desempenho feminino na sociedade dos tempos bíblicos e também em nosso tempo.


A interpretação feminista da Bíblia diz que Deus foi um déspota no trato com as mulheres, que Ele as tratou como sub-raça, que elas serviam apenas para criar e procriar. E pasmem, encontramos em nosso reduto cristão uma boa quantidade de mulheres que assim interpretam a Palavra de Deus. Infelizmente esse tipo de leitura produz cristãs estressadas, angustiadas, infelizes; tornando-as mulheres-problemas em seus lares, na igreja e na sociedade.


Como então, tornar-se uma mulher sábia à luz da Palavra de Deus tendo uma visão correta do plano de Deus e uma leitura adequada de Sua Palavra?


Algumas diretrizes práticas nos ajudarão nesse propósito observando alguns exemplos tirados da experiência de Maria:


Primeiro, uma mulher sábia conhece seu Deus – veja como Maria se expressou em seu cântico após ser comunicada pelo anjo de que ela seria a mãe do Salvador: “Minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu salvador” (Lc. 1:46,47). Maria era uma mulher sábia porque conhecia o seu Deus. Ela não o chamou de salvador aleatoriamente ou movida pela emoção da anunciação, nem o fez por um arrobo poético, mas porque Maria conhecia a Deus profundamente. Procure conhecer a Deus plenamente; o que torna muitas mulheres sem sabedoria é porque não conhecem a Deus intimamente. Um fraco conhecimento de Deus acarreta em uma visão diminuída do Seu reino e o do papel da mulher.


Segundo, uma mulher sábia conhece a si mesma – Maria não era uma mulher inocente, alienada, imaculada. Era madura! Apesar de sua pouca idade; “Porque atentou na baixeza de sua serva”(Lc. 1:48); só quem diz isso é quem tem plena consciência de si mesmo. Maria sabia de suas fraquezas suas limitações suas frustrações, etc. mas era uma mulher sábia, esse foi um dos motivos porque Deus a escolheu e a chamou “bem aventurada”. Você quer ser uma mulher sábia? Conheça-se, encare suas limitações de frente, reconheça seus pecados, seus medos, seus obstáculos. Quando diagnosticamos os problemas – e isso se dá quando nos apercebemos quem somos, demonstramos sabedoria.


Terceiro, uma mulher sábia conhece seu ambiente – veja como Maria tinha uma visão ampla e clara do seu ambiente: “E a sua misericórdia é de geração em geração Sobre os que o temem. Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, E elevou os humildes.


Encheu de bens os famintos, E despediu vazios os ricos. Auxiliou a Israel seu servo, Recordando-se da sua misericórdia; Como falou a nossos pais, Para com Abraão e a sua posteridade, para sempre.”. Percebam a compreensão correta que Maria tinha do palco da história de sua vida. Uma mulher verdadeiramente sábia conhece sua própria história, do seu marido, etc. A falta de sabedoria passa invariavelmente pela compreensão errada do ambiente onde se estar. Comumente encontramos mulheres dizendo: “Se eu soubesse que você era assim não teria me casado com você”, isso é típico da mulher que não conhece a história de seu cônjuge. Como Maria, conheça seu ambiente, seja sábia.


Uma visão correta do Reino de Deus bem como uma leitura piedosa de Sua Palavra é fundamental para se tornar sábia. Que Deus derrame sobre nós Sua infinda graça e misericórdia, como fez com Maria. Amém.


Rev. Flávio Martins

terça-feira, 8 de março de 2011

A inclinação da Carne é Inimiga de Deus


SERMÃO PREGADO NA MANHÃ DE DOMINGO, 22 DE ABRIL, 1855,
POR CHARLES HADDON SPURGEON,
EM EXETER HALL, STRAND, LONDRES.

“Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”
Romanos 8:7
“Já que a mente posta na carne é inimiga de Deus.”
A Bíblia das Américas)

Esta é uma denúncia muito solene que o apóstolo Paulo formula contra a mente carnal. Ele a declara como inimiga de Deus. Quando relembramos o que o homem foi uma vez, considerado apenas um pouco menor do que os anjos; aquele companheiro que passeava com Deus no jardim do Éden durante o dia. Quando pensamos que o homem foi criado à imagem de seu Criador, puro, sem mancha e imaculado, não podemos nos sentir nada menos do que amargamente afligidos ao descobrir uma acusação como esta, proferida contra nós como raça. Devemos pendurar nossas harpas sobre os salgueiros ao ouvir a voz de Deus, quando fala solenemente à Sua criatura rebelde.

“Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva!
Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.
Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura,... em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados.
Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas.
Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti. Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas.”

Sentimos-nos extremamente tristes quando contemplamos as ruínas de nossa raça. Como o cartaginense que ao pisar o lugar desolado de sua mui amada cidade, derramou lágrimas abundantes quando a viu convertida em escombros pelos exércitos romanos; ou como o judeu que perambulava pelas ruas desertas de Jerusalém, enquanto lamentava que a grade do arado tivesse desfigurado a beleza e a glória dessa cidade que era a alegria de toda a terra; assim deveria doer em nós, por nossa raça, quando contemplamos as ruínas dessa excelente estrutura que Deus formou, essa criatura sem rival em simetria, com um intelecto superado somente pelo intelecto dos anjos, esse poderoso ser, o homem, quando contemplamos como caiu, e caiu, e caiu de sua elevada condição, convertido em uma massa de destruição.

Há alguns anos atrás, podíamos observar uma estrela que resplandecia com um brilho inusitado, mas subitamente desapareceu; chegaram a fazer conjeturas de que se tratava de um mundo que ardia a bilhões de quilômetros de nós, mas ainda assim, os raios dessa conflagração chegaram até nós; o silencioso mensageiro de luz deu o alarme aos remotos habitantes deste globo: “um mundo arde!” Mas, que importância tem a conflagração de um planeta distante; o que é a destruição do elemento material do mundo mais gigantesco, comparada com esta queda da humanidade, com este naufrágio de tudo o que é santo e sagrado em nós?

Para nós, na verdade, as coisas dificilmente se podem comparar, pois estamos profundamente interessados em uma destruição, mas não na outra. A queda de Adão é NOSSA queda; caímos nele e com ele; sofremos da mesma maneira; lamentamos a ruína de nossa própria casa, deploramos a destruição de nossa própria cidade, quando nos detemos para captar estas palavras escritas de forma tão clara que não podem ser mal interpretadas: “A inclinação da carne” (esses mesmos desígnios que uma vez foram santos, e que passaram a ser carnais), “são inimizade contra Deus.” Que Deus me ajude nesta manhã a formular solenemente esta denúncia contra todos vocês! Oh, que o Espírito Santo nos convença de tal modo do pecado, que unanimemente nos declaremos “culpados” diante de Deus! Não há nenhuma dificuldade na interpretação do meu texto: mal necessita uma explicação. Todos nós sabemos que a palavra “carnal” aqui significa a natureza pecaminosa. Os antigos tradutores colocavam a passagem assim: “a mente posta na carne é inimiga de Deus”, ou seja, a mente não regenerada, essa alma que herdamos de nossos pais, essa natureza pecaminosa que nasceu em nós quando nossos corpos foram formados por Deus. A mente não regenerada, phronema sarkos, os desejos, as paixões da alma; isto é o que se separou de Deus e se converteu em Seu inimigo.

Mas antes que entremos em uma discussão da doutrina do texto, observem a forma vigorosa como o apóstolo se expressa: “A inclinação da carne,” diz, “é INIMIZADE contra Deus.” Ele usa um substantivo, e não um adjetivo. Não diz que simplesmente se opõe a Deus, mas sim que se trata de uma inimizade positiva. Não é o adjetivo negro, e sim o substantivo negrura; não é inimizado e sim a inimizade mesma; não é corrupto, mas sim a corrupção; não é rebelde, mas sim a rebelião; não é perverso, mas sim a perversão mesma. O coração ainda que seja enganoso, é engano positivo; é o mal concreto, pecado na sua essência; é a destilação, a quintessência de todas as coisas que são vis; não é invejoso de Deus, é a própria inveja; não está inimizado, é a inimizade real.

Não precisamos dizer uma palavra para explicar que é “inimizade contra Deus.” Não acusa a natureza humana de ter simplesmente uma aversão ao domínio, às leis, ou às doutrinas de Deus; mas sim que atesta um golpe mais profundo e mais preciso. Não golpeia o homem na cabeça, mas penetra em seu coração; coloca o machado na raiz da árvore, e declara “inimizade contra Deus,” contra a pessoa da Deidade, contra o Ser Supremo, contra o poderoso Criador deste mundo; não inimizado contra Sua Bíblia ou contra Seu Evangelho, ainda que isso seja verdade, mas sim contra Deus mesmo, contra Sua essência, Sua existência, e Sua pessoa. Sopesemos então as palavras do texto, pois são palavras solenes. Estão muito bem expressadas por esse maestro da eloquência, Paulo e, além disso, foram ditadas pelo Espírito Santo, que ensina ao homem como se expressar corretamente. Que nos ajude a interpretar esta passagem, que nos deu previamente para Sua explicação.

O texto nos pede que tomemos nota, primeiro, da veracidade desta afirmação; em segundo lugar, da universalidade do mal que nos aflige; em terceiro lugar, vamos descer ainda mais às profundezas do tema com a intenção de que o gravem em seu coração, ao demonstrar a enormidade do mal; e depois disso, se o tempo alcança, vamos extrair uma doutrina ou duas do fato geral.

I. Primeiro, nos convida a falar sobre a veracidade desta grande declaração: “a inclinação da carne é inimizade contra Deus.” Não requer provas, pois como está escrito na palavra de Deus, nós, como cristãos, estamos obrigados a inclinar-nos diante dela. As palavras da Escritura são palavras de sabedoria infinita, e se a razão é incapaz de ver o fundamento de uma declaração desta revelação, está obrigada a crer nela mui reverentemente, pois estamos convencidos que ainda que esteja acima de nossa razão, não pode ser contrária a ela.

Aqui encontro que está escrito na Bíblia: “A inclinação da carne é inimizade contra Deus”; e isso, em si, me basta. Mas se fossem necessárias testemunhas, convocaria às nações da antiguidade; desenrolaria o volume de história antiga; comentaria-lhes os fatos terríveis da humanidade. Quem sabe comoveria suas almas até o aborrecimento, se lhes falasse da crueldade desta raça para consigo mesma, se lhes mostrasse como converteu a este mundo em Aceldama por suas guerras, e o inundou com sangue por suas lutas e assassinatos; se lhes enumerasse a negra lista de vícios em que caíram nações inteiras, ou lhes apresentasse as características de alguns dos mais eminentes filósofos, sentiria vergonha de falar deles e vocês se negariam a escutar. Sim, seria impossível que vocês, como refinados habitantes de um país civilizado, suportassem a menção dos crimes que foram cometidos por esses mesmos homens que hoje em dia são alçados como modelos de perfeição. Tenho medo de que se escrevêssemos toda a verdade, abandonaríamos a leitura das vidas dos mais poderosos heróis e dos sábios mais orgulhosos da terra, e diríamos de imediato de todos eles: “Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um.”

E se isso não fora suficiente, quero fazê-los ver os erros dos pagãos; quero falar-lhes das superstições de seus sacerdotes que submeteram as almas à superstição; quero que sejam testemunhas das horríveis obscenidades, dos ritos diabólicos que constituem as coisas mais sagradas para estes ofuscados indivíduos. Então, depois de terem ouvido o que constitui a religião natural do homem, eu pediria a vocês que me explicassem o que seria sua irreligião. Se esta é sua devoção, qual seria sua impiedade? Se este é seu ardente amor pela Deidade, qual seria seu ódio à mesma? Estou certo que vocês de imediato confessariam, se soubessem o que é na natureza humana, que a denúncia está sustentada e que o mundo deve exclamar sem reservas, sinceramente: “culpado”.

Posso encontrar um argumento adicional no fato de que as melhores pessoas têm sido sempre as mais dispostas a confessar sua depravação. Os homens mais santos, os que estão mais livres de impurezas, sempre sentiram com mais intensidade a sua depravação. O que tem suas vestes mais brancas, perceberá melhor as manchas que caiam nelas. O que possui a coroa mais reluzente, saberá quando perdeu uma pedra preciosa. O que dá mais luz ao mundo, sempre será capaz de descobrir sua própria escuridão. Os anjos do céu cobrem seus rostos; e os anjos de Deus na terra, Seu povo escolhido, sempre devem cobrir seus rostos com a humildade, quando se lembram do que foram.

Escutem a Davi: ele não era desses que se vangloriam de uma natureza santa e de uma disposição pura. Ele diz: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.”

Muitos desses santos homens escreveram aqui, neste volume inspirado, e encontraremos a todos confessando que não eram limpos, não, nem um sequer; e um deles exclamou: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?”

Além disso, chamarei a outra testemunha para que testifique a veracidade deste fato, e que decidirá a questão: será sua própria consciência. Consciência, te colocarei no banco das testemunhas para interrogar-te esta manhã! Consciência, diga a verdade! Não te drogues com o ópio da segurança em ti mesma! Testifica a verdade! Nunca ouviste dizer ao coração: “queria que Deus não existisse”? Por acaso todos os homens não desejaram, algumas vezes, que nossa religião não fosse verdadeira? Ainda que não puderam livrar suas almas inteiramente da ideia da Deidade, por acaso não desejaram que não existisse Deus? Não acariciaram o desejo de que todas estas realidades divinas fossem um engano, uma farsa e uma impostura? “Sim,” responde cada indivíduo, “isso me ocorreu algumas vezes; desejei poder entregar-me à insensatez. Desejei que não houvessem leis que me restringissem; desejei, como o insensato, que não houvesse Deus.”

Essa passagem dos Salmos que diz: “DISSE o néscio no seu coração: não há Deus,” está mal traduzida. A tradução correta deveria ser: “Diz o néscio no seu coração: não aceito a Deus. O néscio não diz em seu coração não há Deus, pois ele sabe que há um Deus; Ao contrário, afirma: “Não aceito a Deus, não preciso de nenhum Deus, queria que não existisse nenhum” E, quem de nós não foi tão insensato que não chegou a desejar que não houvesse Deus?

Agora, consciência, responde outra pergunta! Tu confessaste que algumas vezes desejaste que não existisse Deus; então, suponhamos que um homem desejasse a morte de outro. Acaso isso não demonstraria o seu ódio? Sim, demonstraria. E assim, meus amigos, o desejo de que Deus não exista, demonstra que temos aversão a Deus. Quando desejo a morte de outro e que apodreça no túmulo; quando desejo que seja um non est (um ser inexistente), devo odiar a esse homem; de outra forma não desejaria que fosse um ser extinto. Assim que esse desejo (e não creio que haja existido alguém no mundo que não o houvesse sentido), demonstra que “a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

Mas, consciência, tenho outra pergunta! Acaso não desejaste alguma vez em teu coração, posto
que há um Deus, que Ele fosse um pouco menos santo, um pouco menos puro, de tal maneira que essas coisas que agora são graves crimes, pudessem ser consideradas ofensas veniais, simples pecadinhos? Acaso não disseste nunca em teu coração: “Queria que estes pecados não fossem proibidos”. Queria que Ele fosse misericordioso para que os esquecesse sem requerer nenhuma expiação! Queria que não fosse tão severo, tão rigorosamente justo, tão severamente estrito na Sua integridade.” Coração meu, nunca disseste isso? A consciência deve responder: “Eu disse.” Bem, esse desejo de mudar a Deus, demonstra que não amas a Deus que é o Deus do céu e da terra; e ainda que fales de religião natural, e te glories de reverenciar ao Deus dos verdes campos, dos prados férteis, das águas abundantes, do retumbar do trovão, do céu azul, da noite estrelada, e do grandioso universo: ainda que tu ames o belo ideal poético da Deidade, não se trata do Deus da Escritura, pois tu desejaste mudar Sua natureza, e nisso demonstraste que estás inimizado com Ele. Mas, consciência, por que devo ficar fazendo rodeios? Tu podes ser uma testemunha fiel, se queres dizer a verdade, que cada pessoa aqui presente transgrediu de tal maneira contra Deus, quebrou tão continuamente Suas leis, violou Seu dia de repouso, espezinhou Seus estatutos, depreciou Seu Evangelho, que é muito certo, ai, sumamente certo que “a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

II. Agora, em segundo lugar, tomemos nota da universalidade deste mal. Quão vasta é esta afirmação. Não é uma mente carnal singular, ou uma certa classe de características, senão “os desígnios da carne.” É uma afirmação sem restrições, que inclui a cada indivíduo. Qualquer mente que possa apropriadamente ser chamada carnal, se não foi espiritualizada pelo poder do Espírito Santo de Deus, é “inimizade contra Deus.”

Observem então, em primeiro lugar, a universalidade disto relativa a todas as pessoas. Toda mente carnal no mundo está inimizada com Deus. Isto não exclui nem sequer os bebês que se alimentam do peito da mãe. Nós os chamamos de inocentes, e na realidade são inocentes de transgressões reais, mas como diz o poeta: “no peito mais terno jaz uma pedra”. Na mente carnal de um bebê há inimizade contra Deus; não está desenvolvida, mas está ali. Alguns afirmam que as crianças aprendem a pecar por imitação. Mas não: Peguem uma criança, coloquem-na sob as influências mais piedosas, se assegurem que o próprio ar que respira seja purificado pela piedade, que saboreie santidade, que somente escute a voz da oração e do louvor; que seus ouvidos se mantenham afinados pelas notas do hino sagrado; e apesar de tudo isso, essa criança pode ainda se converter em um dos mais depravados transgressores; e ainda que na aparência esteja pronta em direção ao caminho do céu, descerá diretamente ao abismo se não é guiada pela graça divina.

Oh, quão certo é que alguns que tiveram os melhores pais, tenham se convertido nos piores filhos; que muitos que foram treinados sob a égide sagrada, em meio às mais favoráveis cenas de piedade, se converteram, contudo, em libertinos e dissolutos! Assim que não é por imitação, mas sim, pela natureza que a criança é má. Concordemos que a criança é carnal, pois meu texto diz: “a inclinação da carne é inimizade contra Deus”.

Escutei que um crocodilo recém-nascido, quando sai de sua casca, no mesmo instante se coloca em posição de ataque, abrindo sua mandíbula como se houvesse sido ensinado ou treinado. Sabemos que os jovens leões quando são domados e domesticados, conservam a natureza selvagem de seus semelhantes da selva, e se os colocassem em liberdade, caçariam tão ferozmente como os outros.

O mesmo acontece com a criança; podes amarrá-la com os verdes juncos da educação, podes fazer o que quiseres com ele, mas como não podes mudar seu coração, estes desígnios da carne estarão inimizados com Deus; e apesar do intelecto, do talento, e de tudo o que possam dar-lhe que seja proveitoso, será da mesma natureza pecaminosa como qualquer outra criança, ainda que na aparência sua natureza não seja tão má; pois “a inclinação da carne é inimizade contra Deus.” E se isto se aplica às crianças, igualmente inclui toda a classe de homens.

Há alguns homens que nasceram neste mundo dotados de espíritos superiores, que caminham por todos os lados como gigantes envoltos em mantos de luz e glória. Refiro-me aos poetas, homens que se destacam como colossos, mais poderosos que nós, que aparentam haver descido das esferas celestiais. Outros há, de intelecto afiado, que investigando os mistérios da ciência, descobrem coisas que estiveram ocultas desde a criação do mundo; homens de tenaz investigação e de vasta erudição; e, contudo, de cada um destes (poetas, filósofos, metafísicos e grandes descobridores), se dirá: “a inclinação da carne é inimizade contra Deus.”

Poderá treiná-lo, converter seu intelecto em algo quase angelical, fortalecer sua alma até que entenda o que constitui enigmas para nós, e os decifre com seus dedos num instante; poderás fazê-lo tão poderoso que possa entender os segredos ferrenhos dos montes eternos e pulverizá-los com seu punho; poderás dar-lhe um olho tão perspicaz que possa penetrar os mistérios das rochas e das montanhas; poderás agregar-lhe uma alma tão poderosa que possa matar a gigantesca Esfinge, que por muito tempo confundiu os sábios mais notáveis; mas mesmo que tenhas feito tudo isto, sua mente será depravada e seu coração carnal ainda estará em oposição a Deus.

E, ainda mais, podes levá-lo à casa de oração; podes expô-lo constantemente à pregação mais clara do mundo, onde escutará as doutrinas da graça em toda a sua pureza, e pregação acompanhada de santa unção; mas se essa santa unção não descansa nele, tudo haverá sido em vão: pode ser que assista com toda regularidade, mas, igual à piedosa porta da capela, que gira para dentro e para fora, ele seguirá sendo igual; poderá ter uma religião superficial externa, mas sua mente carnal estará inimizada com Deus.

Agora, esta não é uma afirmação minha, é a declaração da palavra de Deus, e podem colocá-la de lado se não acreditam nela; mas não discutam comigo, já que é a mensagem do meu Senhor; e é válida para cada um de vocês: homens, mulheres e crianças, e para mim também, que se não somos regenerados e convertidos, se não experimentamos uma mudança de coração, nossa mente carnal está inimizada contra Deus.

Além disso, tomem nota da universalidade disto em todo momento. A mente carnal está em todo momento inimizada com Deus. “Oh,” alguém dirá, “pode ser verdade que às vezes nos opomos a Deus, mas certamente nem sempre nos opomos.” “Há momentos,” dirá alguém, “quando sinto que me rebelo, algumas vezes minhas paixões me conduzem a desviar-me; mas certamente há outras ocasiões favoráveis quando realmente sou amigável com Deus, e lhe ofereço verdadeira devoção. Às vezes estive (continua o impugnador), no cume da montanha, até que toda minha alma se acendeu com a cena contemplada abaixo, e meus lábios pronunciaram o hino de louvor—

“Estas são Tuas gloriosas obras, Pai de bondade,
Todo poderoso, Tua é esta estrutura universal,
Tão bela e maravilhosa: quão maravilhoso és Tu!”

Sim, mas preste atenção, o que é verdade hoje, não é falso amanhã; “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” todo o tempo. O lobo poderá estar adormecido, mas continua sendo lobo. A serpente, com seus tons camaleônicos, pode dormitar no meio das flores, e a criança pode acariciar seu dorso liso, mas continua sendo uma serpente; não muda sua natureza ainda que esteja adormecida. O mar é o albergue das tormentas, ainda que esteja plácido como um lago; o trovão continua sendo o trovão que retumba poderosamente, ainda que se encontre tão longe que não possamos escutá-lo. E o coração, ainda que não percebamos suas ebulições, ainda que não vomite sua lava, e não jogue as ferventes rochas de sua corrupção, continua sendo o mesmo temível vulcão. Em todo momento, a todas horas, a cada instante (digo isto segundo o que Deus diz), se vocês são carnais, cada um de vocês é inimizado contra Deus.

Temos outro pensamento relativo à universalidade deste enunciado. Todos os desígnios da carne são inimizade contra Deus. O texto diz: “A inclinação da carne é inimizade contra Deus”; isto é, todo o homem, cada parte dele: cada poder, cada paixão.

Seguidamente se perguntam: “Que parte do homem foi afetada pela queda?” pensam que a queda
somente foi sentida pelos sentimentos, mas que o intelecto permaneceu incólume; eles argumentam isto sustentados na sabedoria do homem, e os impressionantes descobrimentos que foram feitos, tais como a lei da gravidade, a máquina a vapor e as ciências. Agora, eu considero estas coisas como uma exposição insignificante de sabedoria, quando as comparamos com o que se descobrirá dentro de cem anos, e diminutas quando comparadas com que o que se poderia descobrir caso o intelecto humano houvesse permanecido em sua condição original. Eu creio que a queda esmagou o homem completamente. Ainda que quando passou como uma avalanche sobre o poderoso templo da natureza humana, alguns elementos permaneceram intactos, e em meio às ruínas se pode encontrar por aqui e por ali, uma flauta, um pedestal, uma coroa, uma coluna, que não estão completamente quebrados, a estrutura inteira caiu, e suas relíquias mais gloriosas são coisas caídas, fundidas no pó.

O homem completo está estropiado. Olhem nossa memória; acaso não é verdade que a memória participa da queda? Eu posso recordar muito mais as coisas más que as coisas que tem cheiro de piedade. Se eu escuto uma canção lasciva, essa música do inferno ficará em meus ouvidos até que eu fique grisalho. Mas se escuto uma nota de santo louvor: ai!, me esqueço! Por que a memória aperta com mão de ferro as coisas más, mas sustém com dedos frágeis as coisas boas. A memória permite que o cedro glorioso dos bosques do Líbano flutue sobre a corrente do esquecimento, mas retém toda a imundície que chega flutuando da depravada cidade de Sodoma.

A memória recordará o mal, mas esquecerá o bem. A memória participa da queda. O mesmo ocorre com os afetos. Amamos as coisas terrenas mais do que deveríamos amá-las; rapidamente entregamos nosso coração a uma criatura, mas raras vezes o oferecemos ao nosso Criador; E quando o coração é entregue a Jesus, é propenso a se extraviar.

Olhem a nossa imaginação também. Oh! Como se deleita a imaginação quando o corpo se encontra em uma condição perniciosa. Somente dêem ao homem algo que o leve a ponto de intoxicar-se; droguem-no com ópio; e como dançará sua imaginação cheia de alegria! Como pássaro liberto de sua jaula, como se renovará com asas mais vigorosas que as asas da águia! Vê coisas que nem sequer havia sonhado nas sombras da noite. Por que razão sua imaginação não trabalhou quando seu corpo se encontrava em um estado normal, quando era saudável? Simplesmente porque a imaginação é depravada; e enquanto não se introduziu um elemento imundo, enquanto o corpo não havia começado a estremecer-se com um tipo de intoxicação, a fantasia não pensava celebrar seu carnaval. Temos alguns esplêndidos exemplos do que o homem pode escrever, quando influenciado pela maldita aguardente. Pelo fato de que a mente é tão depravada, ela se encanta com tudo aquilo que põe o corpo em uma condição anormal; e aqui temos uma prova que a própria imaginação se extraviou.

O mesmo acontece com o juízo: posso demonstrar quão imperfeitamente decide. Também posso acusar a consciência, e dizer-lhe quão cega é ela, e como lhe cintila o olho ante os maiores desatinos. Posso examinar todos nossos poderes, e escrever na frente de cada um deles: “Traidor ao céu! Traidor ao céu!” Toda “a mente posta na carne é inimiga de Deus”.

Agora, meus queridos leitores, “somente a Bíblia é a religião dos protestantes”: mas sempre que reviso um certo livro tido em grande estima por nossos irmãos anglicanos, o encontro inteiramente ao meu lado, e invariavelmente sinto um grande deleite ao citá-lo. Vocês sabem que sou um dos melhores clérigos da Igreja da Inglaterra, o melhor, se me julgarem pelos Artigos, e o pior se me julgarem por qualquer outra norma?

Meçam-me pelos Artigos da Igreja da Inglaterra, e não ocuparia o segundo lugar ante ninguém abaixo do céu azul do firmamento, pregando o evangelho contido neles; pois se há um excelente epítome do Evangelho, se encontra nos Artigos da Igreja da Inglaterra. Permitam-me mostrar-lhes que não estiveram escutando uma doutrina estranha. Temos, por exemplo, o artigo nono, sobre o pecado de nascimento, o pecado original: “O pecado original não consiste em seguir a Adão (como o afirmam em vão os pelagianos), mas é a falha e a corrupção da natureza de cada indivíduo, que naturalmente é engendrada pela prole de Adão, pela qual o homem está sumamente distanciado da justiça original, e é por sua própria natureza propenso ao mal, de tal forma que o desejo da carne é contra o Espírito; e, portanto, toda pessoa vinda a este mundo merece a ira de Deus e a condenação.

E esta infecção da natureza efetivamente permanece, sim, nos que são regenerados; pelo qual a concupiscência da carne, chamada no grego: phronema sarkos, que alguns expõem como a sabedoria, a sensualidade, o afeto, o desejo da carne, não está sujeita à Lei de Deus. E ainda que não haja condenação para os que crêem e são batizados, contudo o apóstolo confessa que a concupiscência e a lascívia têm em si a natureza do pecado. Não necessito mis nada. Acaso alguém que creia no Livro de Oração discordará da doutrina que “a mente posta na carne é inimiga de Deus”?

III. Eu disse que procuraria, em terceiro lugar, mostrar a grande enormidade desta culpa. Temo, meus irmãos, que seguidamente quando consideramos nosso estado, não pensamos tanto na culpa como pensamos na miséria. Algumas vezes tenho lido sermões sobre a inclinação do pecador ao mal, o que tem sido demonstrado com muito poder, e certamente o orgulho da natureza humana tem sido muito humilhado e abatido; mas me parece que há algo que deixamos fora, e que terá como resultado uma grande omissão, ou seja: a doutrina que o homem é culpado em todas estas coisas. Se seu coração está contra Deus, devemos dizer que o pecado é seu; e se não pode arrepender-se, devemos lhe mostrar que o pecado é a única causa da sua incapacidade para fazê-lo, (que toda sua separação de Deus é pecado), que o se manter afastado de Deus é pecado.

Temo que muitos dos que aqui estamos devemos reconhecer que não acusamos nossas próprias consciências desse pecado. Sim, dizemos, estamos cheios de corrupção. Oh, sim! Mas ficamos muito tranquilos.

Meus irmãos, não deveríamos fazer isto. Termos essas corrupções é nosso crime, que deve ser confessado como um mal enorme; e se eu, como um ministro do Evangelho, não enfatizasse o pecado envolvido nele, não teria encontrado seu próprio vírus. Teria deixado de fora a verdadeira essência, se não mostrasse que é um crime.

Agora, “a inclinação da carne é inimiga de Deus”. Quão grave é esse pecado! Isto se manifestará de duas formas. Considerem nosso relacionamento com Deus, e logo lembrem o que Deus é; e depois que eu houver falado destas duas coisas, vocês verão, espero, que é um pecado estar inimizados com Deus.

Que é Deus para nós? É o Criador dos céus e da terra; Ele sustenta os pilares do universo. Ele com Seu hálito, perfuma as flores. Com Seu lápis colore. Ele é o autor desta linda criação. “Somos ovelhas do seu pasto; Ele nos fez, e não nós a nós mesmos”. A relação que tem conosco é de Construtor e Criador; e por esse fato reclama ser nosso Rei. Ele é nosso Legislador, o autor da lei; e logo, para que nosso crime seja pior e mais grave, Ele governa a providência; pois é Ele quem nos guarda dia a dia. Ele supre nossas necessidades; Ele mantém o ar que nosso nariz respira. Ele ordena ao sangue que mantenha seu curso por todas nossas veias; Ele nos mantém com vida, e nos previne da morte; Ele está diante de nós como nosso Criador, nosso Rei, nosso Sustento, nosso Benfeitor; e eu pergunto: por acaso não é um crime de enorme magnitude, não é alta traição contra o imperador do céu, não é um pecado horrível, cuja profundidade não podemos medir com a sonda de todo nosso juízo, que nós, Suas criaturas, que dependemos dEle, estejamos inimizados com Ele?

Mas nós podemos ver que o crime é mais grave quando pensamos no que Deus é. Me permitam apelar pessoalmente a vocês em um estilo de interrogatório, pois isto tem muito peso. Pecador! Por que estás inimizado com Deus? Deus é o Deus de amor. Ele é amável com Suas criaturas. Ele te olha com Seu amor de benevolência, pois este mesmo dia Seu sol brilhou sobre ti, hoje tiveste alimento e roupas, e chegaste a esta capela com saúde e vigor. Odeias a Deus porque te ama? Essa é a razão? Considerem quantas misericórdias recebeste de Suas mãos durante tua vida! Não nasceste com um corpo disforme; tiveste uma tolerável medida de saúde; te recuperaste muitas vezes de doenças. Quando estavas no limiar da morte, Seu braço deteve tua alma do último passo de destruição. Odeias a Deus por tudo isto? O odeias porque salvou tua vida por Sua terna misericórdia? Contempla toda Sua bondade que estendeu diante de ti! Poderia ter te enviado ao inferno; mas estás aqui. Agora, odeias a Deus porque te conservou?

Oh, por que razão estás inimizado com Ele? Meu amigo, acaso não sabes que Deus enviou a Seu Filho procedente de Seu peito, e O pendurou na cruz, e ali permitiu que morresse pelos pecadores, o justo pelos injustos? E, odeias a Deus por isso? Oh, pecador, acaso é esta a causa de tua inimizade? Estás tão longe que agradeces com inimizade o amor? E quando te rodeou de favores, quando te cingiu com bênçãos, quando te cumulou de misericórdias, acaso O odeias por isso? Ele poderia dizer-te o mesmo que disse Jesus aos judeus: “Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais?” Por quais destas obras odeiam a Deus? Se algum benfeitor terreno houvesse te alimentado, o odiarias? Se te houvesse vestido, o ultrajarias em sua face?

Se te houvesse dado talentos, tornarias contra ele estes poderes? Oh, fala! Forjarias o ferro de uma adaga e a cravarias no coração de teu melhor amigo? Odeias a tua mãe que te criou em seus joelhos? Acaso maldizes a teu pai que sabiamente velou por ti? Não, respondes, sentimos uma pequena gratidão por nossos parentes terrenos. Onde estão seus corações, então? Onde estão seus corações, que ainda podem depreciar a Deus, e estar inimizados com Ele? Oh, crime diabólico! Oh, atrocidade satânica! Oh, iniquidade indescritível! Odiar a Quem é todo amável, aborrecer ao que mostra misericórdia constante, desdenhar do que bendiz eternamente, escarnecer do bom, do cheio de graça; sobretudo, odiar a Deus que enviou a Seu Filho para que morresse pelo homem! Ah!, este pensamento: “A mente posta na carne é inimiga de Deus,” há algo que nos sacode; pois é um terrível pecado estar inimizados com Deus. Quisera poder falar com maior poder, mas somente meu Senhor pode fazê-los ver o enorme mal deste horrível estado do coração.

IV. Mas há uma ou duas doutrinas que procuraremos deduzir de tudo isto. Está a mente posta na carne “inimizada com Deus”? Então a salvação não pode ser por méritos; tem que ser por graça. Se estamos inimizados com Deus, que méritos poderíamos ter? Como podemos merecer algo do Ser que odiamos? Ainda que fôssemos puros como Adão, não poderíamos ter nenhum mérito; pois não creio que Adão tivesse algum merecimento diante de seu Criador. Quando tinha guardado toda a lei de seu Senhor, não era senão um servo inútil; não tinha feito mais do que tinha que fazer; não tinha um saldo a seu favor, não havia um excedente. Mas como nos tornamos inimigos, quanto menos podemos esperar ser salvos por obras! Oh, não; a Bíblia inteira nos diz, do principio ao fim, que a salvação não é pelas obras da lei, e sim pelos atos da graça.

Martinho Lutero declarava que ele pregava constantemente a justificação pela fé unicamente, “porque”, dizia, as pessoas tendem a se esquecer; de tal forma que me via obrigado a quase golpear suas cabeças com minha Bíblia, para que gravassem a mensagem em seus corações.” E é verdade que constantemente esquecemos que a salvação é somente pela graça. Sempre estamos tentando introduzir uma pequena partícula de nossa própria virtude; queremos cooperar com algo. Recordo um velho ditado do velho Matthew Wilkes: “Salvos por suas obras! É como se tentassem chegar a América em um barquinho de papel!” Salvos por suas obras! Isso é impossível! Oh, não; o pobre legalista é como um cavalo cego que dá voltas e voltas no moinho; ou como o prisioneiro que sobe os degraus da roda de moinho, e descobre que não subiu nada depois de todo o esforço que fez, não tem uma confiança sólida, não tem uma base firme onde possa apoiar-se. Não fez o suficiente: “nunca o suficiente”. A consciência sempre diz: “isto não é a perfeição; deveria ter sido melhor”. A salvação para os inimigos deve ser alcançada mediante um embaixador, por uma expiação, sim, por Cristo.

Outra doutrina que extraímos disto é: a necessidade de uma mudança completa de nossa natureza. É certo que desde que nascemos estamos inimizados com Deus. Quão necessário é, então, que nossa natureza tenha uma mudança! Há poucas pessoas que sinceramente crêem nisto. Eles pensam que se clamam: “Senhor, tem misericórdia de mim”, quando estão agonizando, irão ao céu diretamente. Permitam-me supor um caso impossível por um momento. Imaginemos um homem que está entrando no céu sem uma mudança em seu coração. Ele se aproxima das portas. Escuta um soneto. Ele se sobressalta! É um hino de louvor para o seu inimigo. Vê um trono, e nele está assentado Um que é glorioso; mas é seu inimigo. Caminha por ruas de ouro, mas essas ruas pertencem a seu inimigo. Vê hostes de anjos, mas essas hostes são os servos de seu inimigo. Ele se encontra na casa de um inimigo; pois ele está inimizado com Deus. Não pode unir-se aos cantos, pois desconhece a melodia. Ficaria ali parado, silencioso, imóvel, até que Cristo dissesse com uma voz mais potente que dez mil trovões: “Que fazes tu aqui? Inimigos no banquete das bodas? Inimigos na casa dos filhos? Inimigos no céu? Vá embora! Aparta-te, maldito, para o fogo eterno do inferno”!

Oh!, senhores, se os não regenerados pudessem entrar no céu. Trago uma vez mais à memória, o tão repetido ditado de Whitefield: seria tão infeliz no céu, que pediria a Deus que me permitisse precipitar-me ao inferno para buscar abrigo lá.

Deve haver uma mudança, se pensamos no estado futuro, pois, como poderiam os inimigos de Deus sentar-se no banquete das bodas do Cordeiro?

E para concluir, me permitam recordar-lhes (e depois de tudo está no texto), que esta mudança deve ser feita por um poder superior ao de vocês. Um inimigo pode possivelmente converter-se em amigo; mas não a inimizade. Se ser um inimigo fosse uma adição à sua natureza, ele poderia tornar-se um amigo; mas se é a essência mesma de sua existência ser inimizade, positiva inimizade, a inimizade não se pode mudar a si mesma. Não, devemos fazer algo mais do que podemos alcançar. Isto é precisamente o que se esquece nestes dias. Necessitamos mais pregação com a unção do Espírito Santo, se queremos ter mais obra de conversão. Eu digo a vocês, amigos, que se vocês operam a mudança em vocês mesmos, e se tornam melhores, e melhores, e melhores, mil vezes melhores, nunca serão o suficientemente bons para o céu. Enquanto o Espírito de Deus não haja posto Sua mão em vocês; enquanto não haja regenerado o coração, enquanto não haja purificado a alma, enquanto não haja mudado o espírito inteiro e não haja feito do homem uma nova criatura,

não poderão entrar no céu. Quão seriamente, então, deveriam fazer uma pausa e meditar. Eis-me aqui, uma criatura de um dia, um mortal nascido para morrer, contudo um ser imortal! Neste momento estou inimizado com Deus. Que farei? Acaso não é meu dever, assim como minha felicidade, perguntar se há uma maneira de ser reconciliado com Deus?

Oh!, esgotados escravos do pecado, acaso não são seus caminhos, sendas de insensatez? Acaso é sabedoria, oh meus amigos, é sabedoria odiar a seu Criador? É sábio estar em oposição a Ele? É prudente desprezar as riquezas da Sua graça? Se for sabedoria, é a sabedoria do inferno; se é sabedoria, é uma sabedoria que é insensatez para com Deus. Oh, que Deus nos conceda que possam voltar-se para Jesus com pleno propósito de coração! Ele é o embaixador; Ele é o único que pode estabelecer a paz por meio de Seu sangue; e ainda que vieram aqui como inimigos, é possível que atravessem essa porta como amigos, se não fazem senão olhar a Jesus Cristo, a serpente de bronze que foi alçada.

E agora, pode ser que alguns de vocês tenham sido convencidos do pecado, pelo Espírito Santo. Eu agora vou proclamar o caminho da salvação. “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna.” Contempla, oh temeroso penitente, o instrumento de tua libertação. Volta teus olhos cheios de lágrimas para aquele Monte do Calvário! Olha a vítima da justiça, o sacrifício de expiação por tua transgressão. Olha para o Salvador em Suas agonias, comprando tua alma com torrentes de Seu sangue, e suportando teu castigo em meio às agonias mais intensas. Ele morreu por ti, se confessas tuas culpas agora. Oh, vem tu, homem condenado, auto condenado, e volta teus olhos a este caminho, pois um só olhar salvará. Pecador, tu foste mordido. Olha! Não necessitas nenhuma outra coisa senão “olhar!” É simplesmente “olhar!” Basta que olhes a Jesus e serás salvo. Ouves a voz do Redentor: “Olhem para mim e sedes salvos.” Olhem! Olhem! Olhem! Oh almas culpadas

“Confia nEle, confia plenamente,
Não permitas que outra confiança se intrometa;
Ninguém senão Jesus
Pode fazer bem ao pecador desvalido.”

Que meu bendito Senhor os ajude a vir a Ele, e lhes atraia a Seu Filho, por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém e Amém.


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